Resenha: Não há silêncio que não termine – Ingrid Betancourt

Não há silêncio que não termine: Meus anos de cativeiro na selva colombiana

“[…] Estou livre e choro. De felicidade e de tristeza, de honra e de gratidão. Tornei-me um ser complexo. Não consigo mais sentir uma emoção de cada vez, estou dividida entre contrários que me habitam e me sacodem. Sou dona de mim mesma, mas pequena e frágil, humilde pois consciente demais de minha vulnerabilidade e de minha inconsequência. E minha solidão me descansa. Sou a única responsável por minhas contradições. Sem precisar me esconder, sem o peso daquele que escarnece, que late ou que morde.”

O livro

Publicado pela editora Companhia das Letras em 2010, o livro escrito por Ingrid Betancourt, narra em 555 páginas a vida a qual a autora e muitos outros raptados políticos levaram sob o comando de seus raptores, o grupo FARC-EP. Ao título original de “Même le silence a une fin” o livro foi traduzido por Antonio Carlos Viana, Dorothée de Bruchard, José Rubens Siqueira e Rosa Freire d’Aguiar para a versão brasileira da obra, que trata-se de um biografia que envolve temas como o rapto, luta armada, desvios e conflitos políticos e visão de liberdade versus poder.

Sobre a obra

As Farc, como popularmente é conhecida, nada mais é que a sigla para “Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo”. Inicialmente tomou força sendo uma arma do povo, mas que para se manter, usou do tráfico para angariar recursos e do rapto de civis e militares para conseguir acordos políticos.

Ingrid Betancourt é uma franco-colombiana (possui tanto nacionalidade francesa como colombiana) que no ano de seu sequestro, 2002, estava em plena companha para se eleger à presidência da Colômbia. Foi sequestrada enquanto se dirigia a uma cidade na qual teria um encontro com alianças partidárias, juntamente com sua assistente de campanha.

No inicio de seu sequestro, os comandantes garantiam que ela não teria muitas privações e ambas seriam tratadas com o maior respeito possível, mas tudo começa a mudar quando as duas começam a tentar fugir, os comandantes trocam, os locais de alojamento na mata também mudam, e alguns guerrilheiros de alto escalão nas Farc, morrem, retrocedendo todos os possíveis acordos entre o governo e o grupo guerrilheiro para libertar os reféns.

Passando por muitos conflitos com a guerrilha, tentativas de fuga frustradas, desentendimento entre os próprios presos e muitos maus tratos, depois de seis anos e meio, finalmente ela e o grupo de prisioneiros que havia se unido a ela, sendo três americanos, alguns civis (políticos) e militares colombianos, acabou por ser resgatado em uma operação das Forças Armadas Colombianas, ou melhor dizendo, o exército da Colômbia, dando fim ao sofrimento não só dos capturados como de seus familiares, sem que houvessem mortes de qualquer um dos lados, uma vez que as Farc tinha a ordem de executar qualquer prisioneiro frente a uma possível emboscada militar.

Minha opinião

Qualquer pessoa que acredite achar entender de política e lados políticos, deve ler este livro. As intonações são sutis, mas refletem o que realmente as coisas são, e frisa o que já sabemos mas não praticamos, que a liberdade é um direito de todos, mas que ela termina quando inflige o livre arbítrio de outra pessoa.  Também é possível compreender o que o “poder” pode e vai fazer com as pessoas.

Terminei o livro pensando que Ingrid Betancourt é uma mulher forte. Sem firulas. Apenas uma mulher forte que enfrentou toda a humilhação, dor e doenças da maneira que conseguiu, para sair viva daquele lugar que cada dia mais a modificava, mas que por sina ou força de vontade, fazia com que ela buscasse ser uma pessoa melhor, fosse no meio da mata ou fosse fora dali.

Um livro cheio de esperança e sofrimento, andando numa linha fina entre estes dois lados distintos, revelando que nem tudo é o que parece, e no meio do caos, nem todo mundo consegue escolher corretamente, ou tem boas opções.

A autora

Ingrid Betancourt nasceu em 1961, em Bogotá. Graduada no Institut d’Étudess Politiques de Paris, ex-deputada e ex-senadora, era candidata à presidência da Colômbia nas eleições de 2002 quando foi sequestrada pelas Farc. Depois de quase sete anos na selva, Betancourt foi libertada em julho de 2008. Seu sequestro, chamou a atenção do mundo todo para os conflitos existentes em seu país. Ingrid tem dois filhos, sendo uma menina que na época do sequestro (2002) tinha 16 anos e um menino à época 13 anos, que ela somente reencontrou quando tinham respectivamente 22 e 19 anos.

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